Quadrilha de Contagem roubava, clonava e vendia veículos em aplicativo

Doze pessoas foram presas na última quinta-feira suspeitas de integrarem duas organizações criminosas responsáveis por práticas como roubos, clonagem e vendas de veículos clonados em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. Os veículos, sempre luxuosos, são comercializados por meio de aplicativo de compra e venda na internet. Pela mesma operação, sete pessoas ainda estão foragidas e uma terceira quadrilha já é investigada pela polícia.

O esquema começa quando os líderes das organizações encomendam os veículos aos assaltantes do grupo. Após o roubo, um outro integrante da quadrilha vai aleatoriamente em busca de carros semelhantes aos roubados e anota as placas para a clonagem. Os veículos são adulterados em seus sinais pelos próprios líderes do bando. Outro comparsa é responsável por conseguir as placas e os selos para o emplacamento do veículo em uma fábrica que não exige a documentação obrigatória.

Passado o processo de clonagem, os criminosos providenciam um documento de identidade, com a fotografia do falsário e em nome do verdadeiro dono do veículo clonado. Assim, já com o veículo pronto e adulterado, os criminosos anunciam o veículo no site de compra e venda OLX. Os integrantes do grupo participam das negociatas entre as vítimas e, munidos das identidades falsas, vão até o cartório, abrem firma se passando pelo verdadeiro proprietário do carro, e vendem o veículo dentro do cartório falsificando a assinatura do dono. O valor da venda é repassado por transferência bancária para os integrantes do grupo. Um dia antes de concluir a negociação, os criminosos já fazem uma reserva de retirada e ficam com o valor de 10% do negócio.

As investigações apontam que apenas nos meses de abril e maio deste ano esses grupos foram responsáveis por roubar, adulterar e vender pelo menos seis veículos, sendo quatro deles para vítimas de boa fé e outros dois para receptadores. Somente na semana passada, cinco veículos luxuosos foram apreendidos com os criminosos.

O despachante Antonio dos Santos, 65, um dos suspeitos presos, foi um dos únicos detidos que quiseram falar com a reportagem e afirmou que não faz parte de nenhuma organização criminosa. “Eu não fiz nada. A casa não caiu. Eu vou provar minha inocência onde eu quiser, até no paredão de fuzilamento. Eu bato de pé junto, não tenho nada a temer. Não conheço ninguém aqui e não tenho formação de quadrilha nenhuma”, afirmou.

Já Guilherme Ferreira da Silva, 43, mais conhecido como Gui, é acusado de guardar os veículos clonados na garagem da sua residência, onde teria realizado uma festa para a quadrilha no dia em que a polícia cumpriu os mandados de prisão. O homem, que diz ser comerciante, dono de três lanchonetes, afirmou, contudo, que é apenas um “amante de grandes eventos”. “Só faço festa. Gosto de tomar champagne, beijar na boca das novinhas, não tenho nada a ver com roubo de carro, não. Isso é lero lero, colocaram isso de implicância comigo, porque eu sou ostentador, gosto de gastar, gosto de tomar com as gatinhas, gosto de fazer minhas festinhas. Isso é crime onde? Eu gosto é de evento, faço eventos para famosos. Eu não mexo com nada de carro. Meu negócio é tomar minha champagne e tomar minha cervejinha e meus whiskyzinho. Aí vai e coloca negócio de formação de quadrilha, quadrilha pra mim é em junho”, afirmou entoando uma canção no ritmo de festa junina.

Segundo a Polícia Civil, as festas realizadas por Silva são famosas pelo uso excessivo de drogas, o que foi confirmado pelo autor durante entrevista. “Ô fi, cocaína, droga, todo mundo usa, quem não usa? Quem não dá um ‘rayzinho’? Agora lá não é ponto de droga, não, não foi provado isso, tanto que pularam na minha casa e não acharam nada, não acharam droga, não acharam arma, nada. Minha casa é limpa, é uma casa onde as pessoas vão para se divertir. Eu sou um camarada público, eu tenho meu nome a zelar”, afirmou.

O líder de uma das organizações, Guilherme de Souza Lopes, 25, carregava no corpo duas tatuagens curiosas. Uma delas, no antebraço, tem os dizeres “Desculpa, mãe”. Questionado, o homem disse que pede desculpas a mãe todos os dias por tudo o que fez, mas não quis especificar de quais atos infracionais se arrepende. Já na panturrilha, as iniciais P.J.L, que significa Paz, Justiça e Liberdade, um dos lemas do Primeiro Comando da Capital (PCC), estão tatuadas com letras garrafais. “Isso aqui é pra prestar solidariedade, fortalecer os manos que estão presos”, afirmou.

A ação faz parte da operação “O crime não compensa”, da Polícia Civil, cujas investigações já duram cinco meses. Após uma perseguição policial, um dos criminosos que havia acabado de roubar um carro bateu o veículo na avenida João César de Oliveira, em Contagem. Embora tenha conseguido fugir, ele estava sendo escoltado por outros dois comparsas, que foram detidos. Os policiais foram até a casa deles e encontraram documentos de veículos falsos e pinos de adulteração de veículo automotor. Os investigadores, então, pediram uma quebra de sigilo do telefone dessas pessoas e identificaram a organização.

“Verificando o grande número de carros que são roubados e furtados todos os meses no município de Contagem, uma média de 500 veículos por mês, dos quais apenas 1/3 deles são recuperados, a Polícia Civil fez um trabalho direcionado a redução desses índices e ressarcimento às vítimas.  Vai ser um trabalho cirúrgico de desarticulação desses grupos”, explicou o delegado Christiano Xavier, da Delegacia Regional de Contagem.

Somente na primeira fase da operação, 19 mandados de prisão já foram expedidos. Foram presos assaltantes de veículos, receptadores, adulteradores responsáveis pela clonagem, falsificadores de documentos de identidade e documentos veiculares, estelionatários e pessoas que forneciam contas bancárias para que o dinheiro da venda fosse repassado.

O delegado Christiano Xavier alerta para que compradores estejam atentos ao comprarem veículos usados. “Apenas olhando a olho nu o documento do veículo, a gente vê que onde tem o MG existe uma rasura, uma lavagem ali. Geralmente eles pegam documentos de outros estados, a maioria das vezes que constatamos foi do Espírito Santo, lavam aquela parte do ES e colocam um MG ali. Essa é uma boa dica para quem está comprando através de site, mas é sempre melhor a gente comprar um veículo de procedência, saber de quem a gente tá comprando, um veículo confiável, é melhor para evitar mesmo”, alertou.

Questionada, a empresa OLX afirmou, por meio de nota, que “a atividade da empresa consiste na disponibilização de espaço para que usuários possam anunciar e encontrar produtos e serviços de forma rápida e simples. Diariamente, cerca de 500 mil novos anúncios são inseridos na plataforma. Toda negociação é realizada fora do ambiente do site, assim, a empresa não tem controle sobre as transações feitas entre os usuários”. A nota diz também que o anúncio foi removido e que o usuário teve sua conta bloqueada permanentemente pela OLX.

Números

Segundo a Polícia Civil, 500 veículos são roubados por mês em Contagem, cerca de 6.000 por ano.

Cidades - Contagem - Minas Gerais Apresentacao de duas quadrilhas especializadas em roubo e furtos de carro sao presos em Contagem  Foto: Uarlen Valerio /  O Tempo 09/10/2017

Cidades - Contagem - Minas Gerais Apresentacao de duas quadrilhas especializadas em roubo e furtos de carro sao presos em Contagem  Foto: Uarlen Valerio /  O Tempo 09/10/2017

Cidades - Contagem - Minas Gerais Apresentacao de duas quadrilhas especializadas em roubo e furtos de carro sao presos em Contagem  Foto: Uarlen Valerio /  O Tempo 09/10/2017

Jornal O Tempo

 

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