Violência. Conflitos dentro da escola e insegurança fora das instituições estão no topo da lista de preocupação dos estudantes

No último dia 24, um estudante de 15 anos não gostou de ter seu celular recolhido pelo professor de uma escola municipal de Pouso Alegre, no Sul de Minas, e tentou matar a diretora a facadas. Por sorte, a vítima se feriu apenas nas mãos quando tentava defender-se. Apesar de parecer extremo, esse tipo de caso é comum em escolas de Minas Gerais. Segundo dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp), foram 9.805 infrações contra pessoas registradas em unidades de ensino no ano passado – média de 26,8 por dia. Em 2015, foram 10.196 crimes desse tipo, 27,9 situações diariamente.

Os números se tornam ainda mais alarmantes diante do resultado da pesquisa Repensar o Ensino Médio, que mostrou que, para 85,5% dos estudantes ouvidos, a segurança é o atributo mais relevante do ensino médio hoje. O levantamento foi divulgado no mês passado pela ONG Movimento Todos Pela Educação e recolheu a opinião de 1.551 jovens de todo o país, entre 15 e 19 anos, nas redes pública e privada. A segurança também aparece como o segundo ponto menos satisfatório dessa etapa da educação, atrás apenas dos laboratórios de informática.

A segurança no ambiente escolar leva em consideração tanto a violência externa quanto os atritos gerados dentro das unidades, como explica a coordenadora de Articulação e Mobilização do Todos Pela Educação, Carolina Fernandes. Ela destaca que assaltos e sequestros na saída das escolas são alguns exemplos, mas brigas entre alunos, entre estudantes e professores e até casos de bullying são considerados. “Com relação à segurança externa, é importante um trabalho com a segurança pública, mas não é só ela. O ideal é que todas as áreas trabalhem com a educação”, destaca.

Para a especialista, a segurança dentro da escola parte de um maior acolhimento dos alunos nas rotinas da instituição. “É importante que eles se sintam parte desse espaço. Que eles possam conversar, que se sintam parte da escola. E, com eles contribuindo, a segurança interna teria muito mais valor”, afirma.

Prevenção. Para tentar lidar com situações como a registrada em Pouso Alegre, a Secretaria de Estado de Educação, responsável pelo ensino médio, desenvolve o Plano de Convivência Democrática nas Escolas. “As superintendências de ensino e a Coordenadoria de Direitos Humanos buscam entender os diferentes tipos de violências na escola, inclusive a da própria escola, discutindo até mesmo o bullying”, diz a superintendente de Desenvolvimento do Ensino Médio da Secretaria de Estado de Educação (SEE), Cecília Resende.

Segundo ela, um sistema eletrônico de registros está sendo desenvolvido, no qual as próprias instituições catalogarão e repassarão casos de violência ao governo pela internet de forma periódica. “Nós não podemos tratar tudo como caso de polícia. O combate à violência parte muito mais de uma discussão, de um reconhecimento dessa situação. E o Plano de Convivência Democrática vem trazer esse olhar”, pondera Cecília.

Estatística. Os dados da Sesp incluem registros de infrações consumadas contra a pessoa, feitas pelas polícias Civil e Militar e pelos bombeiros, em instituições públicas e particulares.

SAIBA MAIS

Mais importantes. Segundo a pesquisa Repensar o Ensino Médio, além da segurança, os atributos mais relevantes do ensino médio são atenção às pessoas com deficiência (83,1%), professores sempre presentes (81,3%) e boa infraestrutura (81,2%).

Insatisfação. Os cinco itens menos satisfatórios apontados pelos jovens entrevistados foram aulas de informática (54,6%), segurança (29,6%), atenção às pessoas com deficiência (28,8%), comprometimento dos alunos (28,6%) e boa infraestrutura (28,4%).

Pouso Alegre. De acordo com a Superintendência de Ensino do município, o jovem que tentou matar a diretora da escola, de 54 anos, tem envolvimento com drogas. O Conselho Tutelar foi acionado, e o jovem foi apreendido.

BELO HORIZONTE

Instituições seguem sem vigias

Escolas municipais de Belo Horizonte ainda não conseguiram recontratar os vigilantes noturnos demitidos na gestão do ex-prefeito Marcio Lacerda. O Sindicato dos Trabalhadores em Educação da Rede Pública Municipal de Belo Horizonte (Sind-Rede) informou que a nova administração deixou o recrutamento desses profissionais a cargo das próprias instituições. No entanto, elas deverão preencher os cargos com orçamento próprio, e não com verbas do Executivo, como acontecia antes.

“Alguns diretores ficam com receio de efetuar a contratação e isso impactar o Orçamento da própria escola”, explica o diretor do Sind-Rede BH, Wanderson Rocha. Segundo ele, em uma reunião realizada com diretores de escolas há cerca de 25 dias, a prefeitura não reafirmou o compromisso de viabilizar a recontratação dos mesmos vigilantes demitidos. Em um universo de aproximadamente 200 escolas, cerca de 70 teriam conseguido preencher o cargo.

Conforme o anúncio feito pela prefeitura da capital em abril, a expectativa era que as instituições de ensino fossem contempladas até o mês de julho. A administração municipal não detalhou se há um número determinado de seguranças noturnos que podem ser contratados para atuar nas escolas do município.

Em 2016, foram demitidos 520 vigias noturnos nas escolas municipais e nas Umeis. A justificativa era cortar gastos, substituindo os trabalhadores por um sistema eletrônico de segurança, que incluía a instalação de alarmes sonoros nas instituições. Procurada para comentar o assunto, a Prefeitura de Belo Horizonte não havia se posicionado até o fechamento desta edição.

Rotatividade de professor é maior em escola mais pobre

SÃO PAULO. As escolas com alunos mais pobres do país têm mais rotatividade no quadro de professores, menos alunos interessados nas vagas existentes e diretores menos experientes, com menor salário em relação a outros colégios. É o que aponta estudo inédito produzido pela Fundação Lemann, com base em respostas dadas pelos diretores aos questionários da Prova Brasil de 2015, avaliação nacional mais recente que mede o desempenho dos colégios.

Em 80% das escolas de nível socioeconômico (NSE) muito baixo sobram vagas de alunos depois do processo de matrícula. Do lado oposto, nas de NSE muito alto, só 13% têm sobra de vagas, segundo os diretores.

O estudo aponta ainda que, entre os professores, falta estabilidade: nas escolas de nível muito baixo no máximo 30% tem 1/4 do quadro docente estável, ou seja, contratado por meio de concurso. No nível baixo, 21% das escolas têm o problema, que cai para 2% nas de nível alto ou muito alto.

 

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